B-e-m – a-v-e-n-t-u-r-a-n-ç-a

Publicado por Editor
para o Diário Sudoeste

Publicado em: 26 julho 2010

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Não tem jeito. Estou morrendo. Talvez eu me vá daqui a algumas horas, meses, anos. Não sei. A certeza é somente de que se iniciou o termo a partir de quando eu nasci. Desde que não circula notícia se amanhã me encontrarei aqui, resolvi fazer este meu testamento. Procurei no meu baú uns trens para legar de herança e só encontrei a palavra. Portanto aceite de bom grado, pois é só o que possuo de relevante. Não sei se você vai obter um bom lance para a palavra num leilão. Só se um poeta mais louco do que eu se atrever a arrematá-la. Imagino que não há possibilidade de negociá-la no mercado de ações, financeiro ou imobiliário, contudo sugiro que vá a uma praça e a venda para o bêbado. Se quiser apostar, sopre a palavra para a criança brincando no balanço do parque, no momento exato em que ela estiver suspensa no ar.
Então! Como a maioria, houve uma época em que eu achava que ia tudo bem. E quase feliz eu me percebia. Levei nessa vidinha muitos anos, não sei quantos exatamente, até porque esse dado de tempo agora é sem tempo, já se foi. Um dia, então, a palavra q-u-a-s-e começou a me importunar. Quase feliz? Aonde! E comecei a buscar completar esse q-u-a-s-e, para ver se virava inteiro. Foi uma trajetória escorregadia, de sobe-e-desce, cai não cai, segura direito que o buraco é mais embaixo, mas igualmente, por vezes, de êxtase e bem-aventurança. Tá aí! Deixo de boa vontade para você a bem-aventurança. Conhece palavra mais sem corte?
B-e-m – a-v-e-n-t-u-r-a-n-ç-a! Digna de se falar baixo ou gritando, ou cantando, contanto que seja devagarzinho, saboreando cada sílaba, cada letra da palavra com esmero, experimentando o cheiro, som, gosto, visão… B-e-m – a-v-e-n-t-u-r-a-n-ç-a!… tateando pedacinhos, tais amostras geográficas do ato de amor.
O percurso foi mais para dentro de mim do que para fora, apesar de decerto nem aparentar, porquanto eu trabalhava, dormia, comia… tudo igual a antes. No entanto o bem ali foi também se transformando. De maneira sutil, é bem verdade, mas nem mas nem meio mas, eu quase não via. Ui! E nesse outro q-u-a-s-e, quase eu me perdi novamente. Por quê? Ora! Porque o externo começou a encenar… afinal o que a vida é senão um real teatro de arena e de bulevar?… o que às cegas eu me recusava encarar. A cortina descerrou e enxerguei que eu não era o que delirara. Nem de longe tão politicamente incorreta, sequer imperdível ou insubstituível. Muito menos um exemplar ímpar da espécie, in-descartável. Invejável? Qual! Que imagem arqueológica de perfeição difícil de dissolver, hem? Os outros, ih!… o processo precisa ser assim tão cru?… foram com a banda que passou. Para meu desencanto, o que era doce acabou, depressa a condição humana tomou seu lugar. E cada qual do seu jeito, em cada canto, oh! muitas mortes! um por um tornaram-se o que são, muito embora não bem o que pareciam e eu idealizei ser. Sapo disfarçado de príncipe? Quê! somente gente de carne e osso!
Necessitei de colo como um bebê carente, entretanto ninguém atinou. Fui ao parque. E à praça. Ambos, porém pernoitavam sem viva alma, tampouco sem voz. Provavelmente o bêbado e a criança se esgotaram e precisaram dormir. O que restou da banda cantando se fora sem mim! E me experimentei só. Ainda que todos permanecessem juntos ou perto. Visto que aquela que se envolvera com eles não era mais eu, era outra, a primeira tinha sido levada pela efemeridade do fugaz.
Logo que minha hora já está, inexorável, vou embora, quiçá para Parságada. Casualmente lá em Parságada meus fantasmas — que hoje são como o vento: não os vejo, todavia os sinto — irão tornar-se transparentes, para enfim se transmutarem em Luz. De forma que deixo para você a palavra. Palavra de declarações de amor que eu não ouvi nem disse. De brigas desnecessárias e não-brigas imprescindíveis. Silêncio barulhento, zoada sem acústica. Gozos desejados não gozados. De ruas não andadas, frutas nem um pouco saciadas. Perfume de flor não deleitado. E-u t-e a-m-o não manifesto, cortado. Ausências partidas. Despedida sem adeus.
E o proibido? Quer essa palavra? Se eu fosse você, pegava sem hesitar. O proibido de pensamentos frescos, atitudes ousadas, emoções desmedidas, mesmo que anárquicos. Inconfiáveis? Ah! sobremodo alucinantes. Sem importância se no real ou no imaginário. Proibido de linhas de poema, de pincel, argila, canção, palavra, completude, êxtase, amor. De vida.
Vida. Palavra que tiro proveito para nomeá-lo, a fim de proferi-la em meu nome. Vida que deixo para você, em testamento. Uma vez que tenho direito de fazer o último pedido, o meu é que se torne cinza a minha matéria que estará inerte. No oceano, jogue. Não precisa chorar, não quero flores nem lágrimas, não obstante muitas gotas d’água. Espane sua cabeça das paranóias habituais, me contaram que lá em Parságada não faz frio, pelo contrário, a madrepérola das conchas dispõe de um sistema de aquecimento que oferece um bem-estar harmonioso para corpo e alma.
Abra suas mãos, expanda seu coração e ouça o canto das sereias em alto-mar.
Fique com o E-u t-e a-m-o que não aprendi. B-e-m – a-v-e-n-t-u-r-a-n-ç-a! sobretudo. E não se esqueça, nada do q-u-a-s-e. Viu?

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