No mês em que se comemora o Dia do Índio, celebrado em 19 de abril, a Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio do Arquivo Público Municipal, resgata a memória dos povos indígenas que habitaram o território do município. Mongoiós (ou Camacans), Ymborés (ou Botocudos) e Pataxós compunham o cenário da região, comumente conhecida como Sertão da Ressaca.
Diversas etnias indígenas habitavam a área na época da colonização portuguesa, muitas vindas do litoral em consequência da perseguição dos colonizadores, sobretudo dos bandeirantes paulistas contratados para essa finalidade.
“O nome Sertão da Ressaca deriva tanto da invasão das águas dos rios sobre o sertão quanto da palavra ‘ressaco’, funda baía de mato baixo circundada por serras.”
Segundo o professor e memorialista José Mozart Tanajura, em sua obra “História de Conquista: crônica de uma cidade”, o sertanista João Amaro foi responsável pelo extermínio de diversos povos indígenas do litoral e do interior baiano. Foi ele quem liderou as excursões voltadas a abrir estradas e aprisionar povos indígenas, especialmente na região de Ilhéus.
Em 1693, Amaro liderou a conquista das terras dos indígenas Geréns (ou Gueréns) na Bahia. Naquele mesmo ano, abriu uma das maiores vias de acesso da época, conectando as matas de Ilhéus aos rios Pardo, Jequitinhonha e Salsa, chegando até o Paraguaçu e as margens do rio São Francisco.
De acordo com o advogado Ruy Medeiros, publicado no Jornal Filó, havia seis aldeias de indígenas Mongoiós às margens dos rios de Contas e Pardo no início do século 19, com uma população de quase 4 mil habitantes, além dos demais povos já presentes no Arraial da Conquista, em Cachimbo e no Arraial de Joana.

A ocupação do Sertão da Ressaca se deu por meio de intensos embates com os povos originários. O território dos Ymborés foi o primeiro alvo do bandeirante João Gonçalves da Costa, responsável pelo desbravamento do solo conquistense. Conhecidos por sua coragem, os Ymborés resistiram à invasão, mas foram escravizados. Os Mongoiós se aliaram aos portugueses para derrotá-los.
Em seguida, os Pataxós tornaram-se o segundo alvo de João Gonçalves. Assim como os Ymborés, resistiram à ocupação estrangeira e se refugiaram no sul da Bahia, onde permanecem até hoje, ainda que em número reduzido.
“Depois de invadir os territórios, os portugueses escravizaram os próprios Mongoiós e os obrigaram a trabalhar na abertura de estradas e na derrubada de matas, a aliança havia se revelado uma armadilha.”

Em 1752, ocorreu o episódio mais marcante desse período: o chamado Banquete da Morte. O embate se deu entre os soldados de João Gonçalves da Costa e os indígenas Mongoiós, que, ao perceberem a traição dos portugueses, organizaram uma reação.
A narrativa mais célebre conta que, na madrugada anterior ao combate, João Gonçalves prometeu a Nossa Senhora das Vitórias construir uma igreja no local da batalha, caso saísse vencedor. Motivados pelo voto, os soldados cercaram e aniquilaram os Mongoiós, que caíram do alto da colina onde mais tarde foi erguida a antiga igreja, demolida em 1932. Historiadores, porém, ressaltam que não há comprovação de que essa promessa tenha sido de fato feita.

A história desses povos, suas alianças, resistências e tragédias, permanece viva nos documentos preservados pelo Arquivo Público Municipal de Vitória da Conquista, um patrimônio essencial para compreender as origens do município e honrar a memória dos que aqui viveram antes da colonização.
Matéria escrita por Mavi Borges
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